Estamos em Guerra com a Civilização do Anticristo

Estamos em Guerra com a Civilização do Anticristo

Por Alexander Dugin

Tradução Guilherme Fernandes

Chegou a hora do governo russo dizer ao povo e ao resto do mundo os valores e ideais que defendemos. Infelizmente, ninguém teve coragem de dizer isso. Claro, há aqueles que não têm interesse em fazê-lo porque o Ocidente não nos ouvirá de qualquer maneira, enquanto outros temem que, se fizermos isso, perderemos qualquer chance de restaurar nossas relações com os países ocidentais. Por outro lado, há agentes dentro do governo russo que consideram que defender esses valores é odioso e também não tem nada a ver com sua própria visão de realidade. No entanto, chegará o momento em que teremos que nos pronunciar sobre isso, especialmente porque a ferocidade desencadeada pela operação militar especial não deixa dúvidas de que entramos em um choque de civilizações e é impossível dizer que “nada aconteceu”.

Agora, houve mudanças fundamentais na história e, sem dúvida, a coisa mais difícil ainda está por vir. A OTAN começou a se mover e não é impossível que ela nos ataque. Muitas das guerras que a Rússia lutou – embora não todas – começaram quando fomos atacados, sofremos pesadas perdas, e posteriormente fomos para a ofensiva até que fomos capazes de empurrar nosso inimigo e depois destruí-lo (às vezes até mantivemos uma atitude humana em relação a eles uma vez que os derrotamos). Mas a operação militar especial pertence a uma categoria de guerra totalmente diferente e é por isso que devemos esclarecer o que está acontecendo.

Considero que a narrativa oficial que foi construída em torno de como a operação militar especial começou não é convincente ou, melhor, nem mesmo elaborada. O povo russo vê isso claramente e sabe que tudo começou em 2014, mas há outra coisa que não faz sentido: por que até agora ninguém se atreve a dizê-lo? Claro, as pessoas não teriam que ter ideia do que está acontecendo. No entanto, desta vez eles têm uma explicação muito mais clara do que está acontecendo e as autoridades russas não têm isso: nenhum povo pode tolerar a existência de uma entidade como a Ucrânia após trinta anos de independência. No momento em que a paciência acaba, tudo começa a tomar forma. Isso durou muito tempo e é hora de acabar com isso, ou pelo menos é o que as pessoas pensam. Isso pode ser entendido uma vez que se fala diretamente com as pessoas: estamos lutando para defender nossa identidade, soberania, preservar nosso ser e evitar ser esmagado por potências estrangeiras. No caso de eles continuarem a nos atacar, então responderemos e talvez causaremos grandes ruídos por toda parte. Afinal, se alguém cantar nas portas da nossa casa “vamos enforcar os russos!” (que é a conhecida tradução do refrão infantil e inocente de “Moskalaku na gilyaku!”), enquanto queima, esmaga, estupra, tortura, massacra e rabisca o nosso receberá o que merece. Quem pode permanecer destemido por tais ações?

Sabemos muito bem disso, mas as perguntas que nos fazemos são: quem somos nós? Qual é nossa identidade? Quais são os valores e ideais, por mais contraditórios que defendemos? Quais são os objetivos da operação militar especial? Claro, esta guerra não é sobre o sadismo e crueldade com que terroristas ucranianos mataram o nosso, ou pelo menos não tem nada a ver inteiramente com eles. É, antes de tudo, uma luta contra o Ocidente, pois este último é o nosso verdadeiro rival: uma civilização que tem uma ideologia, uma estrutura, tecnologias, domínio das redes de computadores, enorme quantidade de símbolos culturais e capacidade de espalhar sua propaganda por todo o planeta. É aqui que nossas explicações parciais e tímidas acabam embaçadas, pois somos incapazes de formular abertamente nossa luta.

Ninguém no mundo, e especialmente o Ocidente, não levará a sério o que estamos dizendo agora, porque não é realmente convincente. Mesmo aqueles que apoiam a Rússia e lutam contra o globalismo não entendem por que estamos lutando, então eles só nos apoiam pela inércia. Isso é óbvio quando falamos do nazismo ucraniano, que para os russos é uma teoria sádica e inaceitável (uma verdadeira idiotice) que envolve todos os tipos de práticas criminosas. Os russos consideram o nazismo como uma forma de russofobia extrema destinada a nos destruir.

É claro que é necessário diferenciar ucranianos saudáveis daqueles que foram contaminados por essa ideologia, afinal os ucranianos que não se comungaram com o nazismo foram os primeiros a sofrer com isso. Entendemos isso, mas ninguém mais entende. O Ocidente, que tem alimentado o nazismo ucraniano precisamente por ser russofóbico, realmente se importa muito pouco com os vídeos paramilitares de Azov cheios de tatuagens nazistas nojentas (que nos fazem pensar mais na Alemanha dos anos 1930-1940 do que uma antiga república soviética) e no resto do lixo ideológico nazista que eles carregam. O Ocidente simplesmente ignora o primeiro e ignora o último.

Afinal, o mesmo aconteceu com o terrorismo islâmico que também foi criado pelo Ocidente para lutar contra nós. No momento em que saiu do controle, o Ocidente também se tornou sua vítima. A primeira coisa que fizeram foi pedir-nos a ajuda no combate ao fundamentalismo islâmico e quando viemos propor medidas reais para combater essa ameaça o Ocidente simplesmente se recusou a nos ouvir dizendo que a definição de terrorismo é o que eles dão. Quando os terroristas lutam contra a Rússia, eles são “combatentes da liberdade” e “promotores da democracia”. Não é uma coisa pessoal, é apenas sobre padrões duplos.

A mesma coisa está acontecendo agora na Ucrânia: como os nazistas são a favor do Ocidente e da OTAN “eles não podem mais ser considerados nazistas”. Uma vez que eles são inimigos dos russos, então eles devem ser considerados “democratas”. Não há como mudar essa forma de pensar, porque o Ocidente considera tudo o que é ruim para a Rússia ser a seu favor. Isso é muito óbvio agora que começamos a operação militar especial, então somos os culpados por tudo. Com essas palavras acaba qualquer possibilidade de discutir o assunto. Isso nos leva à seguinte conclusão: só temos que alcançar as últimas consequências e obter a vitória. Assim que conseguirmos isso, falaremos com o Ocidente de frente.

No entanto, devemos começar a nos preparar a partir de agora o que vamos propor, porque as regras do jogo mudaram: nossa missão é salvar o mundo não da Ucrânia, mas do Ocidente globalista e de sua civilização tóxica e podre que agora está destruindo a humanidade com suas perversões culturais, tecnologia, elite arrogante e seus projetos para impor a Grande Reconstrução e o Governo Mundial como meios de controlar a consciência do povo.

Não somos mais a Rússia czarista ou a Rússia Soviética, nem nós somos a Rússia liberal e democrática de 1990: somos o último Retentor, o Katechon por excelência. É por isso que a Rússia está no caminho do avanço do mal. É necessário desenvolver essas ideias e criar uma missão a partir dela. Então tudo fará sentido. Estamos em guerra com o Anticristo e devemos gritar com ele no topo de nossos pulmões. Lutamos pelo estabelecimento de uma ideia russa do mundo. Esta guerra não só afeta russos, ucranianos e europeus, mas também afeta o mundo inteiro: a operação militar especial tem um significado religioso para nós.

Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Membro da Resistência Sulista e Dono do blog Tierra Australes. Também um ativista ferrenho pela reunificação do Uruguai e do Rio Grande do Sul como uma só pátria sob o estandarte de José Artigas.

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