Operação Especial Z e a Necessidade de Reforma na Política Interna da Rússia

Operação Especial Z e a Necessidade de Reforma na Política Interna da Rússia

Por Alexander Dugin

Tradução Guilherme Fernandes

A política interna da Rússia começou a mudar tanto na forma quanto no estilo devido à operação especial na Ucrânia. É claro que muitos estão decepcionados por o governo russo não ter lançado um equivalente à Operação Z dentro da própria Rússia, pois é sabido que o povo não só odeia os nazistas ucranianos, mas também as forças liberais que existem dentro do nosso país e que gostaríamos de ver igualmente sofrimento. Sabe-se que dentro da Rússia muitos liberais continuam a manter suas posições de poder dentro do governo e da sociedade, porque Putin só se livrou dos mais corajosos e fanáticos deles. Compartilho a indignação de muitos patriotas e é por isso que vou expressar minha própria opinião, que é muito mais moderada.

A Operação Z trouxe tantas mudanças que é impossível que tudo volte a ser como era antes, mesmo que seja difícil de acreditar. Portanto, essas mudanças não dependem mais das intenções subjetivas das autoridades russas. Claro, o Kremlin pode continuar a acreditar que a velha ordem política e econômica baseada no liberalismo (e na corrupção) dos anos 1990, juntamente com as elites nascidas naquela época, pode continuar a existir como fazem agora graças a alguns ajustes cosméticos, mas a realidade é que fizemos grandes avanços com a operação militar na Ucrânia. A Operação Z foi lançada porque foi necessário realizar esse processo de purificação e reconstrução da sociedade russa que finalmente começou a despertar e superar os acontecimentos de 1991. Se não fosse assim, teríamos sido capazes de impedir o surgimento de uma anti-Rússia na Ucrânia por meios muito diferentes. O preço que pagaremos por isso será muito alto.

Agora, o sistema que surgiu após 1991, e que quase não mudou desde então, tem suas horas (talvez anos) numeradas, uma vez que é impossível que ele continue existindo nas condições atuais. A Rússia que emergiu na década de 1990 não tem chance de sobreviver, muito menos vencer, em um confronto direto com o Ocidente. O que nos leva à necessidade de criar uma Nova Rússia.

Nem o sistema atual nem as elites pró-ocidentais são capazes de confrontar direta e totalmente o Ocidente, e este confronto não pode ser adiado ou suavizado porque era inevitável. Não temos mais nada a perder, pois explodimos todas as pontes que nos ligavam ao Ocidente. A história voltou para a Rússia e estamos na vanguarda do novo confronto que está se desenrolando.

A atual elite russa – composta principalmente por liberais – tem apenas duas opções: autodestruir ou se tornar patriotas convencidos. O antigo compromisso que deu origem à sexta coluna – aqueles funcionários russos que permaneceram liberais e agentes de influência ocidental, mas relutantemente aceitaram as regras do jogo de Putin – não será mais capaz de operar em meio às novas condições porque em tempos de sabotagem de guerra e incompetência são considerados crimes. No meio de uma catástrofe ou na prisão, as pessoas se rebelam. Só a vida despreocupada e tranquila de um filisteu permite mentiras, mímica, corrupção sem vergonha e traição constante. Mas em meio a situações extraordinárias – como acontece em certos episódios históricos – o caráter do povo vem à tona.

Tudo isso é fácil de provar uma vez que damos aos membros mais inúteis e fracassados da atual elite russa uma missão real e que eles executam suas tarefas de acordo com os critérios de um estado de guerra (é claro, não estamos nos referindo ao aspecto técnico da guerra que os militares sabem como lidar). Se eles falharem em sua missão, eles não serão perguntados por que ou quem os colocou lá, eles simplesmente serão liquidados. Por outro lado, se eles tiverem sucesso, então eles farão parte da nossa, embora tenham que mudar sua maneira de pensar. É assim que as coisas acontecem. Qualquer um pode voltar a ser russo e deixar de lado sua ausência ou falta de russicidade do passado. De agora em diante somos todos russos e isso significa que somos responsáveis um pelo outro e pela nossa vitória, ou… Não haverá lugar para fugir…

As autoridades ficaram sem espaço para manobras. É impossível parar os eventos atuais. Todos os compromissos se desfazem e o nicho que permitiu a existência da sexta coluna deixou de existir.

Passamos da fase do “cesarismo” do qual Gramsci falou, porque as tentativas de flertar e se integrar ao sistema capitalista mundial, preservando nossa soberania, falharam. A verdadeira troca é entre a hegemonia ocidental liberal ou a criação de uma civilização soberana russa que preserva sua cultura e é um assunto da história. A única maneira de combater a hegemonia é criar uma forma de contra-hegemonia operacional. É supérfluo que o Ministério da Cultura tenha rejeitado um excelente projeto sobre a recuperação dos valores tradicionais russos, uma vez que estes últimos se tornaram indispensáveis para a existência contínua do Estado, da sociedade, do povo e dos nossos guerreiros que agora perdem suas vidas lutando contra a hegemonia. De agora em diante, os ministérios do nosso país serão forçados a viver com essas ideias porque elas são indispensáveis para nossa vitória. Não é mais um desejo, mas uma necessidade.

Claro, não estamos vendo dentro da Rússia uma transformação compatível com essas necessidades, mas a Operação Z trouxe grandes mudanças por si só, mudanças que são inevitáveis. A elite russa ficou sem alternativas: ou abraça a contra-hegemonia ou desaparece da história.

A Ideia Russa deixou de ser algo que podemos esquecer ou descartar para nos tornarmos uma necessidade vital. Talvez alguns queiram tentar viver sem essa ideia, embora fazê-lo seria o mesmo que parar de respirar.

A força da inércia é tão grande que muitos não perceberam que o que aconteceu em 22 de fevereiro de 2022 tem grandes implicações. E mesmo que pensemos que nada aconteceu, logo perceberemos que este não é o caso. O que vai acontecer a partir de agora não tem nada a ver com o que as pessoas pensam, mas com a força dos eventos.

Tudo foi esclarecido e desde que ficamos sem opções só temos que ganhar. A história não nos dará uma “terceira opção” para escolher.

Fonte: Operação Especial Z e a necessidade de reforma na política interna da Rússia | Rebelião Contra o Mundo Moderno (wordpress.com)

Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Membro da Resistência Sulista e Dono do blog Tierra Australes. Também um ativista ferrenho pela reunificação do Uruguai e do Rio Grande do Sul como uma só pátria sob o estandarte de José Artigas.

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