Após o Cazaquistão, a Era das Revoluções Coloridas está Acabada

Após o Cazaquistão, a  Era das Revoluções Coloridas está Acabada

Por Pepe Escobar

Tradução de Guilherme Fernandes

O ano de 2022 começou com o Cazaquistão em chamas, um grave ataque contra um dos principais eixos da integração euro-asiática. Estamos apenas a começar a compreender o que e como isto aconteceu.

Na segunda-feira de manhã, os líderes da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (CSTO) efectuaram uma sessão extraordinária para discutir o Cazaquistão.

O Presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, enquadrou-o de forma sucinta. Os motins foram “escondidos atrás de protestos não planeados”. O objectivo era “tomar o poder” – uma tentativa de golpe. As acções foram “coordenadas a partir de um centro único”. E “militantes estrangeiros estiveram envolvidos nos tumultos”.

O Presidente russo Vladimir Putin foi mais longe: durante os motins “foram utilizadas tecnologias Maidan”, uma referência à praça ucraniana onde os protestos de 2013 destituíram um governo hostil à NATO.

Defendendo a pronta intervenção das forças de manutenção da paz da CSTO no Cazaquistão, Putin disse, “foi necessário reagir sem demora”. A CSTO estará no terreno “enquanto for necessário”, mas após a missão estar cumprida, “claro que todo o contingente será retirado do país”. Espera-se que as forças saiam no fim desta semana.

Mas aqui está o argumento conclusivo: “Os países da CSTO mostraram que não permitirão que o caos e as ‘revoluções coloridas’ sejam implementados dentro das suas fronteiras”.

Putin estava em sincronia com o secretário de Estado cazaque Erlan Karin, o qual foi o primeiro, publicamente, a aplicar a terminologia correcta aos acontecimentos no seu país: O que aconteceu foi um “ataque terrorista híbrido”, tanto por forças internas como externas, com o objectivo de derrubar o governo.

O emaranhado da teia híbrida

Praticamente ninguém sabe disso. Mas em Dezembro último, um outro golpe foi discretamente impedido na capital do Quirguistão, Bishkek. Fontes da inteligência quirguize atribuem o planeamento a uma série de ONGs ligadas à Grã-Bretanha e à Turquia. Isto introduz uma faceta absolutamente chave do Grande Quadro Geral: A inteligência ligada à NATO e os seus activos podem ter estado a preparar uma ofensiva simultânea de revoluções coloridas por toda a Ásia Central.

Nas minhas viagens pela Ásia Central em fins de 2019, antes do Covid, era evidente como as ONG ocidentais[NR] – Frentes da Guerra Híbrida – permaneciam extremamente poderosas tanto no Quirguizistão como no Cazaquistão. No entanto, elas são apenas um elo numa névoa ocidental de Guerra Híbrida espalhada pela Ásia Central e, aliás, também pela Ásia Ocidental. Aqui vemos a CIA e o Estado Profundo dos EUA a entrecruzar-se com o MI6 e diferentes vertentes da inteligência turca.

Quando o Presidente Tokayev se referia, em código, a um “centro único”, estava a mencionar uma sala “secreta” de operações militares americana-turco-israelense “secreta” baseada no centro de negócios do sul de Almaty, de acordo com uma fonte de inteligência altamente colocada da Ásia Central. Neste “centro”, havia 22 americanos, 16 turcos e 6 israelenses coordenando gangues de sabotagem – treinadas na Ásia Ocidental pelos turcos – e depois transportadas clandestinamente (rat-lined) para Almaty.

A operação começou a descarrilar quando as forças cazaques – com a ajuda da inteligência russa/CSTO – retomaram o controlo do vandalizado aeroporto de Almaty, o qual deveria ser transformado num centro de recepção de material militar estrangeiro.

A Guerra Híbrida ocidental ficou estupefacta e furiosa com a forma como a CSTO interceptou a operação cazaque a tal velocidade de relâmpago. O elemento chave é que o secretário do Conselho de Segurança Nacional russo, Nikolai Patrushev, via a Big Picture há muito tempo.

Assim, não é mistério porque é que as forças aeroespaciais e aero-transportadas da Rússia, mais a enorme infraestrutura de apoio necessária, estavam praticamente prontas para partir.

Em Novembro último, o laser de Patrushev já estava focado na degradação da situação de segurança no Afeganistão. O cientista político tajique Parviz Mullojanov foi dos poucos que sublinharam haver cerca de 8.000 activos da máquina imperial Salafi-jihadista, enviados por via clandestina da Síria e do Iraque, a vagabundear nas zonas desertas do norte do Afeganistão.

Esse é o grosso do ISIS-Khorasan – ou ISIS reconstituído perto das fronteiras do Turquemenistão. Alguns deles foram devidamente transportados para o Quirguizistão. Dali, era muito fácil atravessar a fronteira a partir de Bishek e aparecer em Almaty.

Patrushev e a sua equipa não demoraram a descobrir, após a retirada imperial de Cabul, como seria utilizado este exército de reserva jihadista: ao longo da fronteira de 7.500 km de comprimento entre a Rússia e os “estões” da Ásia Central.

Isto explica, entre outras coisas, um número recorde de exercícios de preparação realizados em finais de 2021 na 210ª base militar russa no Tajiquistão.

James Bond fala turco

A desagregação da confusa operação cazaque começa necessariamente com os suspeitos habituais: o Estado Profundo dos EUA, o qual só faltou “cantar” a sua estratégia num relatório da corporação RAND de 2019, Extending Russia. O capítulo 4, sobre “medidas geopolíticas”, detalha tudo, desde “fornecer ajuda letal à Ucrânia”, “promover mudança de regime na Bielorrússia” e “aumentar o apoio aos rebeldes sírios” – todas elas grandes fracassos – até “reduzir a influência russa na Ásia Central”.

Este era o conceito mestre. A implementação foi atribuída à conexão MI6-Turquia.

A CIA e o MI6 estiveram a investir em equipamentos duvidosos na Ásia Central desde pelo menos 2005, quando encorajaram o Movimento Islâmico do Uzbequistão (IMU), então próximo dos Talibãs, a causar estragos no sul do Quirguistão. Nada aconteceu.

A história foi completamente diferente em Maio de 2021, quando Jonathan Powell, do MI6, encontrou a liderança de Jabhat al-Nusra – a qual alberga um bocado jihadistas da Ásia Central – algures na fronteira turco-síria, perto de Idlib. O acordo era que estes “rebeldes moderados” – na terminologia dos EUA – deixariam de ser rotulados de “terroristas” na medida em que seguissem a agenda anti-Rússia da NATO.

Este foi um dos movimentos preparatórios chave para transportar clandestinamente jihadistas para o Afeganistão – completado com a ramificação para a Ásia Central.

A génese da ofensiva deve ser encontrada em Junho de 2020, quando o antigo embaixador na Turquia de 2014 a 2018, Richard Moore, foi nomeado chefe do MI6. Moore pode não ter um centímetro da competência de Kim Philby, mas encaixa no perfil: Russofóbico raivoso e um líder de claque fantasista da Grande Turania , a qual promove uma confederação pan-Turca de povos de língua turca da Ásia Ocidental e do Cáucaso até a Ásia Central e até mesmo repúblicas russas no Volga.

O MI6 está profundamente enraizado em todos os ‘estões’, excepto no Turquemenistão autárquico – montando com habilidade a ofensiva pan-turca como o veículo ideal para combater a Rússia e a China.

O próprio Erdogan foi investido numa ofensiva dura da Grande Turânia, especialmente após a criação do Conselho Turcómano em 2009. Crucialmente, no próximo mês de Março, terá lugar no Cazaquistão a cimeira do Conselho da Confederação dos Estados de língua turca – a nova denominação do Conselho Túrquico. A cidade do Turquestão, no sul do Cazaquistão, deverá ser nomeada como a capital espiritual do mundo túrcómano.

E aqui, o “mundo turcómano” entra num choque frontal com o integrador conceito russo da Parceria da Grande Eurásia e mesmo com a Organização de Cooperação de Xangai (SCO) que, crucialmente, não conta com a Turquia como membro.

A ambição a curto prazo de Erdogan parece ser inicialmente apenas comercial: depois de o Azerbaijão ter vencido a guerra de Karabakh, ele espera utilizar Baku para ter acesso à Ásia Central através do Mar Cáspio, a completar com vendas de tecnologia militar do complexo industrial-militar da Turquia para o Cazaquistão e o Uzbequistão.

Empresas turcas já estão a investir fortemente no sector imobiliário e em infraestruturas. E em paralelo, o poder suave de Ancara está em actividade intensa, recolhendo finalmente os frutos do exercício de muita pressão, por exemplo, para acelerar a transição no Cazaquistão da escrita cirílica para o alfabeto latino, a partir de 2023.

Mas tanto a Rússia como a China estão muito conscientes de que a Turquia representa essencialmente a entrada da NATO na Ásia Central. A organização dos Estados turcómanos é enigmaticamente denominada operação cazaque dos “protestos de combustíveis”.

É tudo muito turvo. O neo-otomanismo de Erdogan – que vem com uma maciça torcida da sua base de Irmãos Muçulmanos – essencialmente nada tem a ver com o impulso pan-turânico, o qual é um movimento racista que prevê a dominação por turcos relativamente “puros”.

O problema é que eles estão a convergir enquanto se tornam mais extremados, com os Lobos Cinzentos de direita da Turquia profundamente implicados. Isto explica porque é que a inteligência de Ancara é um patrocinador e, em muitos casos, um armador tanto da franquia ISIS-Khorasan como daqueles racistas do Turan, desde a Bósnia até o Xinjiang via Ásia Central.

O Império lucra graciosamente com esta associação tóxica, na Arménia por exemplo. E o mesmo aconteceria no Cazaquistão se a operação fosse bem sucedida.

Tragam os Cavalos de Tróia

Joe Biden e o seu filho com Karim Massimov.
Cada revolução colorida precisa de um Cavalo de Tróia ‘Máximo’. No nosso caso, esse papel parece ser atribuído ao antigo chefe do KNB (Comité de Segurança Nacional) Karim Massimov, agora detido e acusado de traição.

Extremamente ambicioso, Massimov é meio-Uyghur e isso, em teoria, obstruiu o que ele via como a sua ascensão pré-estabelecida ao poder. As suas ligações com a inteligência turca ainda não estão totalmente detalhadas, ao contrário do seu relacinamento estreito com Joe Biden e o seu filho.

Antigo ministro dos Assuntos Internos e da Segurança do Estado, o Tenente-General Felix Kulov, teceu uma teia emaranhada fascinante explicando a possível dinâmica interna do “golpe” incorporado na revolução colorida.

Segundo Kulov, Massimov e Samir Abish, sobrinho do recentemente deposto Presidente do Conselho de Segurança do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, estiveram afundados até ao pescoço na supervisão de unidades “secretas” dos “homens barbudos” durante os tumultos. O KNB estava directamente subordinado a Nazarbayev, o qual até à semana passada era o presidente do Conselho de Segurança.

Quando Tokayev compreendeu a mecânica do golpe, despromoveu tanto Massimov como Samat Abish. A seguir Nazarbayev “voluntariamente” demitiu-se da sua presidência vitalícia do Conselho de Segurança. Abish obteve então este posto, prometendo deter os ‘homens barbudos’ e demitir-se a seguir.

Assim, isso apontaria directamente para um confronto Nazarbayev-Tokayev. Faz sentido, pois durante os seus 29 anos de governo, Nazarbayev jogou um jogo multi-vectorial que era demasiado ocidentalizado e que não beneficiou necessariamente o Cazaquistão. Adoptou leis britânicas, jogou a carta pan-turca com Erdogan e permitiu que um tsunami de ONGs promovesse uma agenda atlanticista.

Tokayev é um operador muito inteligente. Formado pelo serviço estrangeiro da ex-URSS, fluente em russo e chinês, está totalmente alinhado com a Rússia-China – o que significa em plena sintonia com o plano director do BRI, a União Económica da Eurásia e a SCO.

Tokayev, tal como Putin e Xi, compreende como esta tríade BRI/EAEU/SCO representa o derradeiro pesadelo imperial e como a desestabilização do Cazaquistão – um actor-chave na tríade – seria um golpe mortal contra a integração euro-asiática.

O Cazaquistão, afinal, representa 60% do PIB da Ásia Central, recursos maciços de petróleo/gás e minerais, indústrias de alta tecnologia de ponta: uma república laica, unitária e constitucional com uma rica herança cultural.

Não demorou muito tempo até Tokayev compreender os méritos de chamar imediatamente a CSTO para o salvamento: O Cazaquistão assinou o tratado já em 1994. Afinal de contas, Tokayev estava a combater um golpe de Estado liderado por estrangeiros contra o seu governo.

Putin, entre outros, enfatizou como uma investigação oficial do Cazaquistão é a única com o direito a chegar ao âmago da questão. Ainda não está claro quem – e até que ponto – patrocinou os tumultos de multidões. Os motivos abundam: sabotar um governo pró-Rússia/China, provocar a Rússia, sabotar a BRI, pilhar os recursos minerais, turbinar uma “islamização” ao estilo da Casa de Saud.

Acelerada a apenas poucos dias antes do início [da conferência] de “garantias de segurança” Rússia-EUA em Genebra, esta revolução colorida representou uma espécie de contra-ultimato – em desespero – por parte do establishment da NATO.

A Ásia Central, Ásia Ocidental e a esmagadora maioria do Sul Global testemunharam a resposta euro-asiática rápida e relâmpago das tropas da CSTO – as quais, tendo agora feito o seu trabalho, vão deixar o Cazaquistão dentro de alguns dias – e como esta revolução colorida fracassou, miseravelmente.

Pode muito bem ter sido a última. Cuidado com a fúria de um Império humilhado.

Fonte: https://www.aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/7319-apos-o-cazaquistao-a-era-das-revolucoes-coloridas-esta-acabada

Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Membro da Resistência Sulista e Dono do blog Australis Regio. Também um ativista ferrenho pela reunificação do Uruguai e do Rio Grande do Sul como uma só pátria sob o estandarte de José Artigas.

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