Manifesto do Povo Gaúcho

Manifesto do Povo Gaúcho

Por Irton Marx

Irton Marx é a maior figura do independentismo gaúcho e sulista em nossa região nessa era, já está registrado na história do República Rio-Grandense, como o grande arquétipo do Nacionalista Pampeano. Na integra o seu manifesto ao povo gaúcho do Rio Grande, clamando as massas rio-grandenses que se mobilizem por nossos direitos enquanto povo, pelo nosso ethos e nossa soberania.

Não suportamos mais a demonstração de má vontade do governo do Brasil em relação ao “País dos Gaúchos”, ou à República do PAMPA GAÚCHO. A desorganização e a corrupção generalizada por todo o território brasileiro, a indiferença para com a sua e a nossa gente, nos impelem a tomar uma decisão tão drástica que é o buscar a nossa própria autonomia, resgatando nossa história, firmando-nos como um povo autônomo, que olha o futuro com raro brilhantismo.

Não é justo que paguemos altos preços sociais pela inegável incompetência administrativa do governo e dos políticos do Brasil, bem como, também não é justo que percamos nossas tradições, nossa epopeia de glórias regionais, estamos atrelados a uma nação sem identidade e que não sabe portar-se idoneamente.

Não queremos mais ser manipulados ao bel prazer dos economistas e dos políticos de araque e muito menos por sistemas que só tem prejudicado milhões e milhões de seres humanos. Estamos cansados de militarismos, de explorações mútuas, do medo, da ganância generalizada, dos escravocratas, dos descarados e dos sem-vergonha. Nós sabemos que também temos deste tipo de gente, mas estes nós saberemos reeducar e colocá-los em seus devidos lugares.

Ao longo dos séculos, a região gaúcha foi palco de sangrentos conflitos armados na ânsia de proteger o solo gaúcho e brasileiro, sem que o próprio Brasil reconhecesse a importância e a bravura do povo desta terra. O próprio território brasileiro foi aumentado pelos gaúchos, que disputaram palmo a palmo cada centímetro de terra contra o exército colonialista espanhol nos tempos do império. Foram sempre os gaúchos que se confrontaram com uruguaios, argentinos e paraguaios.

Cansado da indiferença do governo imperial, o povo do sul rebelou-se há quase dois séculos passados, constituindo-se num país independente, que não logrou êxito, porque além de nos confrontarmos contra o exército brasileiro que vinha do Norte, éramos atacados e fustigados pela fome e pela miséria que já assolava nossa gente gaúcha.

Incorporados outra vez ao Brasil quase dez anos mais tarde, com promessas de uma melhor atenção, desmilitarizados, os gaúchos foram outra vez encurralados pela ineficiência e a ganância dos homens do poder central brasileiro, que nos sufocou sempre, o tempo todo, como sendo uma mera nação reconquistada pela força, e que deveria, por sua vez, pagar altos tributos pela insubordinação. Mas nossa luta não parou por ai, e mesmo estando incorporado outra vez ao território do Brasil, o povo gaúcho sempre buscou um espaço maior dentro da política

nacional; através de ideias revolucionárias, evolucionistas, buscava modificar o medieval estilo de vida dos brasileiros. Mas sempre esbarramos nos conceitos ultrapassados do povo brasileiro. Mesmo assim, com toda a nossa dedicação, nossa gente foi esmagada em suas aspirações maiores.

Toda vez que o povo gaúcho se insubordinava com as atitudes dos governantes do Brasil, era porque via desrespeito para com a sua e a nossa gente e mais uma vez o dedo gaúcho apertava o gatilho da moralidade, tentando por outros caminhos, fazer mais justiça ao povo desta terra. Mas fomos desconsiderados. Apenas vaselinavam nossos políticos, ou alguns traidores da causa gaúcha, e jogavam esmolas para manter-nos sempre submissos e presos aos interesses colonialistas do centro do Brasil.

Durante o governo imperial, fomos só explorados pelos governantes da época; hoje somos marionetes dos interesses econômicos abusivos dos mais privilegiados do Brasil. Como um povo inteligente que somos, o mais politizado de todo o território brasileiro, somos forçados a ter que sentir na carne os efeitos dos dissabores provenientes das irresponsabilidades brasileiras.

Da mesma forma que o Brasil não suportou mais as arbitrariedades impostas por Portugal na era imperial, nós, do país dos gaúchos, declaramos que não aguentamos mais ver o aumento desenfreado das disparidades sociais antes jamais vistas em nosso território gaúcho.

Por este motivo, não nos dispomos mais a servir como sendo meros consumidores dos produtos enlatados do centro do Brasil, nem mesmo como simples pagadores de impostos federais cujo retorno só acontece em forma de migalhas muito choradas em demonstração de piedade ou para servir aos interesses políticos daqueles gaúchos que traem nossa gente para manterem-se sempre por cima dos seus demais compatriotas do PAMPA. Negamo-nos a ajudar a financiar obras obsoletas, sem nenhum fundamento apenas para servir de promoção política para alguns brasileiros. Não pretendemos mais remeter dinheiro que só serve para perpetuar os currais eleitorais de políticos fazendeiros de outras partes do Brasil. Além de desviarem o dinheiro gaúcho para obras que nem aparecem, nos fazem passar por ridículos e por pessoas sem inteligência, quando buscam nos manobrar ao seu bel prazer.

Não queremos mais servir a uma classe dominante e sem escrúpulos, que não olha seus subalternos com respeito, que vê neles apenas mais uma peça acoplada a uma máquina de trabalho, ou tão-somente mais um tijolo no muro ou na parede de uma construção.

Queremos respirar o nosso ar puro dos pampas e das planícies, queremos sentir as brisas que cortam por entre as coxilhas gaúchas, onde estão enterrados nossos queridos antepassados, que jazem na esperança de ver esta terra bendita livre e soberana, conduzida por homens honestos, briosos, e que amem antes de tudo sua terra e sua gente. Temos que respeitar todos aqueles que tombaram com este sonho separatista, pois esta é a chama que mantém viva a data de 20 de setembro, como marco de orgulho da nação gaúcha. E estamos dispostos a também morrer por esta causa nobre e tão sonhada por cada um de nós.

Nunca fomos e jamais seremos parasitas, pois produzimos quase tudo de fato e de direito e chegou o momento histórico de pararmos de alimentar ou enriquecer pessoas que nada ou quase nada fazem por si mesmas. Estamos sendo prejudicados a séculos pelos brasileiros em geral. Hoje já existem exploradores no torrão gaúcho, que aprenderam a malícia e a arte da malandragem dos brasileiros.

A dívida externa nos sufoca o tempo todo. Nós, gaúchos, passamos vergonha ao encararmos os estrangeiros nas nossas ruas, que nos olham com desprezo, como sendo velhacos, incompetentes e ignorantes, sem o poder de ação, quando na verdade eles não sabem que o povo gaúcho nada tem a ver com os erros técnicos e as discrepâncias do governo do Brasil. Os estrangeiros não sabem que somos um povo diferente, que só não somos ainda independentes porque deixamos passar dezenas de anos na esperança que tudo pudesse se modificar de uma hora para outra. Mas já perdemos as esperanças numa recuperação nacional, pois as dívidas aumentam com o passar dos dias, dos meses e dos anos e com os novos empréstimos contraídos, cujo dinheiro poucas pessoas sabem do seu destino. Na verdade, o dinheiro estrangeiro não é aplicado no país dos gaúchos e não podemos, por isso mesmo, carregar este fardo que mata nossas crianças de fome, que tortura nossos trabalhadores e que desespera nossos aposentados.

Nossa realidade é bem outra. Temos uma tradição, uma filosofia de trabalho, de boa vontade e o nosso crescimento se deu pelo esforço, amor, luta e dedicação do nosso próprio povo. Outras regiões do Brasil sempre receberam incentivos especiais para a sua industrialização, ao passo que o nosso rincão teve que lutar com suas próprias forças.

Quase nada recebemos em praticamente 400 anos de história gaúcha, a não ser humilhações, desprezo e desconsiderações provindas dos olhares maliciosos e das intrigas de bastidores dos palácios dos governos regionais.

Sabemos que durante dezenas de anos nós alimentamos grande parte do Brasil, mas o governo, ao invés de reconhecer este fato, prefere fazer obras e investimentos em regiões cujos povos não possuem um mínimo de tradição em trabalhar e de pensar um pouco mais. São em sua enorme maioria simples predadores, destruidores da natureza, e por si só nada fazem ou pouco produzem. Com raras exceções, paira o espectro da preguiça, da falta de vontade, em grande parte do Brasil. Por sobre a nação brasileira, está estacionado um tipo de cultura primitiva, feudalista, que só pensa em carnaval, em sambar, em curtir as praias, fazer sacanagens, aplicar golpes imorais e fazer os costumeiros quebra-quebras sempre que houver possibilidade.

Nós não aguentamos mais esta situação. Os bons pagam altos tributos pela sua dedicação as causas melhores, ao passo que os indiferentes são favorecidos o tempo todo. Afora Santa Catarina, que também se desenvolveu por suas próprias forças, que respeitamos e adoramos e queremos que se junte a nós neste movimento, nada temos em comum com praticamente todo o Brasil, que nos faz engolir a força a cultura de outras regiões, minando e confundindo nossos costumes, tirando a nossa própria identidade e maneira de ser.

Temos a nossa própria e secular tradição, nossos próprios costumes. Pretendemos avançar no tempo, conservando nossos hábitos, mas buscando na ciência, na informática, na educação, na saúde, na habitação, nos investimentos da área agrícola, do trabalho, da tecnologia nos projetos espaciais e futurísticos, mais garantia e respeito para nossos filhos, para nossos netos e para a própria civilização gaúcha.

Somos mais de 9 milhões de seres humanos nas mãos dos brasileiros, por causa da nossa anexação ao seu território. Somos mais de 9 milhões de sofredores nas mãos de politiqueiros, de interesseiros nacionais e estrangeiros. Temos um belo território com cerca de 282.184 km2, se juntado ao de Santa Catarina, chegaremos a 378.169 km2, com uma população estimada para o ano de 1990 em cerca de 13 milhões de pessoas habilitadas a fazer prosperar a República do PAMPA GAÚCHO.

Espalhados por todo o território do Brasil os migrantes gaúchos fazem muitas terras prosperarem, como, por exemplo, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Mato Grosso. Mas muitos tiveram que sair chorando da terra gaúcha por causa do sistema ideológico feudalista imposto pelo Brasil, sendo forçados a abandonar, por situações diversas, o torrão ao qual tanto amam e adoram. Mas queremos que todos eles voltem para a sua terra natal, que é o lugar que lhes pertence.

Não pretendemos mais levar de reboque um povo que é indiferente aos seus próprios problemas sociais e econômicos, como também não queremos nos tornar responsáveis pelas consequências futuras em resultado da aplicação de uma política antiquada, medieval e completamente fora da realidade mundial.

Estamos cansados de promessas incumpridas e não acreditamos em mais nenhuma. Tornamo-nos ateus em relação aos brasileiros. Estamos realmente cansados de mendigar favores e de pedir dinheiro que é o nosso mesmo. Nossas enormes arrecadações por intermédio dos impostos devem permanecer no local onde ele foi produzido.

Temos uma diversificada indústria leve e pesada. O PAMPA é sozinho mais desenvolvido industrialmente do que a maioria dos países latino-americanos, africanos e asiáticos. Somos autossuficientes na área agrícola. Temos grandes rios, lagoas, belas montanhas, belas serras, belas planícies e belíssimas cidades de origem portuguesa, polonesa, alemã e italiana. Existem matas e flores por todos os lados. Por isso mesmo, com a nossa independência, o PAMPA passará de um atual terceiro mundo para um reconhecido bloco das nações mais desenvolvidas do mundo. Independentes, figuraremos entre as nações mais desenvolvidas do planeta, ao lado da uma Alemanha, do Japão, da Inglaterra, da Itália e tantos outros.

Queremos nossa autonomia, pois entendemos que todos devem escolher o seu próprio destino. Da mesma forma que o Brasil se libertou de Portugal. Nós não acreditamos que o governo brasileiro vá pretender nos impor uma nova incorporação na base da força, trazendo uma guerra santa contra os gaúchos, agindo de forma incoerente, de forma medieval, colonialista, assim como agem os países do segundo e do terceiro mundo, que comprovam suas irresponsabilidades através de atos insanos, em desrespeito às minorias étnicas e religiosas. O Brasil deve reconhecer que falhou em seus propósitos desde o início, que não comporta, dado o seu enorme território, governar seus súditos, cujas ideias e tradições diferem a cada quilômetro rodado. Deve reconhecer que o país é grande demais e o que servir de um lado não agradará o outro.

Vivemos novos tempos e de grandes decisões e mudanças. Nenhum grande país conseguirá suportar as pressões internas do seu povo, mesmo com o uso das armas, pois povos inteiros estarão se sublevando em cada rincão, buscando sua liberdade étnica e religiosa, conservando seus costumes e suas tradições. Nem mesmo uma poderosa União Soviética, um rico Canadá, uma China, os Estados Unidos ou uma Austrália escaparão de uma lenta e gradual fragmentação. O poder de uma nação não está no tamanho do seu território, mas na capacidade de ação de sua gente. O poder de um povo se apresenta na forma de conduzir-se emocionalmente, tendo suas fronteiras abertas para o livre comércio, apenas controlando as investidas dos especuladores. Se tamanho impusesse respeito e fosse um documento de valor, o Brasil seria uma impressionante potência, e a pequena Inglaterra, menor do que o PAMPA seria uma simples colônia ou um quintal dos mais fortes. Mas é justamente o contrário.

O surgimento desta bandeira de lutas se dá justamente no momento em que tanto se fala da existência de forças progressistas capazes de solucionar os agravantes problemas do Brasil. Ele surge num momento histórico muito importante em nossas vidas, onde se registra um estupendo movimento das classes mais oprimidas na busca de um sonhado lote de terra para plantar e de um teto para morar. O movimento separatista gaúcho, acreditamos, só não terá apoio daqueles que ganham muito com toda esta lamentável situação. Também não receberá o apoio daqueles que se sentem glorificados em possuir enormes propriedades, enquanto que os demais da sua região morrem pelos cantos sem-terra e sem uma casa para habitar.

A luta pela posse da terra, as manifestações de rua, dos sindicatos, da Igreja e de outros setores da vida humana dão vivas demonstrações do descontentamento global do povo gaúcho. E em meio a toda esta situação, surge o movimento separatista gaúcho, que sonha em tornar o país dos gaúchos uma nação livre e soberana.

Nosso movimento se mistura a esta multidão de problemas, a esta incrível discriminação social, racial e econômica, antes jamais vista nesta terra, buscando no meio do povo apoio para nossos ambiciosos projetos de liberdade. Estamos cansados de belos e convincentes discursos espelhando pura demagogia, cujas lideranças tem mantido nossa gente presa e subjugada aos interesses de uma classe dominante e colonialista.

Assim, sabemos que não serão as proposições demagógicas da maioria dos dirigentes brasileiros, no seio dos quais se prega uma série muito grande de mentiras para o povo, que haverão de trazer a mesa do trabalhador o leite, o pão e o mel.

Não solucionarão nem os problemas da saúde, da educação, muito menos aqueles que se referem ao setor da habitação, da organização social e econômica. Embora belos rótulos partidários, somos, isto sim, governados por um sistema desumano, explorador, discriminador, especulador, autoritário, fascista, que consegue manter o povo do país dos gaúchos preso aos conceitos feudalistas, antigos e ultrapassados, mediante medidas econômicas temporárias paliativas e demagógicas.

Nosso movimento separatista surge em função das necessidades históricas, mas desvinculado de ideais imperialistas de direita ou de esquerda, compromissado unicamente com a reconstrução da nossa dignidade e do nosso direito de conduzir nosso destino conforme nossos próprios desejos.

Somos um povo orgulhoso de suas tradições, sonhador, e em nossas pretensões futuristas queremos construir uma nação de respeito pela conduta da sua gente. Estudantes, sindicalistas, religiosos, operários, camponeses, liberais, servidores públicos, funcionários públicos, militares e outros, chegam à conclusão de que jamais poderão resgatar a nossa honra e dignidade secular, a continuar sendo governados por um país que ao longo dos anos só se preocupou em tirar a liberdade de pensamento da sua gente, e que por isso mesmo nem mesmo se autogoverna.

As favelas, as doenças contagiosas, a desorganização social, urbana e rural, o desemprego as agitações insanas, a corrupção generalizada, a carestia, a falta de pudor e do respeito individual, a destruição da família e do meio ambiente, a exploração do homem pelo próprio homem, a sonegação dos impostos, a falta de educação, de cultura evolucionista em nossa gente, a delinquência juvenil e adulta em nossas avenidas, o banditismo que anda à solta por aí, a sujeira corpórea e espiritual do nosso povo, a robotização da classe trabalhadora, a implacabilidade dos nossos soldados, a inconfiabilidade em nossos policiais e nas decisões do judiciário, a falta de visão nos movimentos populares, as depredações públicas e privadas, a prostituição que tomou conta das nossas ruas e da cabeça da nossa gente, o uso abusivo das drogas e a falta de compaixão pelo seu próximo são consequências de sistemas livres em demasia, que confundem liberdade com libertinagem, que não evoluem no tempo e no campo social, cultural, econômico, político e religioso, e, como tais, não podem por si só se dispor a entender e a modificar o panorama geral da nação.

O Brasil é um país contaminado pelas travessuras da sua juventude, pelo espírito animalesco de seus adultos, das conquistas sociais selvagens e inveteradas, pelos vícios da avareza, do egoísmo, da presunção, da malícia, das fofocas, das intrigas, do falar dos outros pelas costas, pela falta de patriotismo, pela falta de respeito pela própria Semana da Pátria, pelo desrespeito aos pais e aos filhos, dedicados unicamente aos prazeres da carne e da imundície desenfreada. Com raras exceções o Brasil só tem no governo homens despreparados e desinformados acerca da sociabilidade humana, incompetentes na arte de governar, mas aptos para ludibriar, tirar proveitos pessoais, para enganar e até roubar. Por incrível que nos possa parecer, o Brasil ainda vive a era das caravelas e das capitanias hereditárias, onde políticos e aproveitadores possuem em seus nomes enormes fazendas, maiores do que grande parte dos países pelo mundo, onde se julgam reis e senhores de todas as coisas. O Brasil é governado por homens antiquados, interesseiros, já superados pelo tempo, em que pese sua pouca ou mais idade ou sua formação acadêmica. Quanto mais estudado for o político a esta altura, mais e mais ele se vale da sua astúcia para saquear os cofres públicos.

A República do PAMPA sente os males da galopante inflação, das altas taxas de juros, por isso mesmo urge a necessidade de ser tomada uma providência drástica, sem a qual seremos outra vez um povo vencido por nossas próprias fraquezas e falta de boa vontade.

Indubitavelmente, não há outros caminhos para salvarmos nosso povo gaúcho das doenças que sofre, senão por um sistema forte, rigoroso, honesto e disciplinado. Assim, pois, e indispensável transformarmos a mentalidade da nossa gente, para que esta se possa preocupar com o espírito moderno e comunitário, se torne aberta a produção em massa e consequente distribuição na sua maneira exata e justa dentro de um sistema correto e equânime.

Por isto, se torna necessária à nossa separação do Brasil, pois sob sua guarda jamais conseguiremos colocar um plano de recuperação econômica em prática, continuaremos eternamente em decadência, deixando de ser gaúchos para nos tornar sertanejos, perdendo cada vez mais a nossa identidade. Infelizmente, dentro da atual conjuntura, não há um mínimo de possibilidade de ser projetado um futuro para nossa gente gaúcha. Paira por sob o Brasil um mal quase que solucionável, que é o espectro da dor, da insatisfação, da falta de honestidade de seus homens dirigentes e do seu próprio povo.

Assim, mister se faz seja tenrificado o aparelho estatal gaúcho, de modo que tenha eficácia e rapidez, sensibilidade social e humanística e, num sentido mais comunitário, tenha o seu olhar sempre voltado para as atividades gerais de seus compatriotas subalternos.

Os atuais partidos políticos brasileiros, mormente os de outras regiões do Brasil, ainda que tenham nomes bonitos e sugestivos, entre os quais são encontradas palavras como cristão, trabalhador, democrático, reconstrução e outras mais, são uma mera continuação disfarçada dos outros que já desgraçaram o Brasil em tempos não tão distantes, e astutamente ainda mantêm uma ideologia desgastada pelo tempo e que já comprovou sua ineficácia total.

Desta forma, nosso movimento representa uma renovação sem igual e de todo um sistema e de modo de vida. Somos a exata aspiração do povo gaúcho, que repudia as mentiras e os enganos vindos de parte de políticos obcecados por altos rendimentos mensais. É o repúdio gaúcho contra a tirania dos mais ricos do Brasil. É o repúdio do povo do PAMPA contra as altas taxas de juros e a insegurança de qualquer medida tomada pelos brasileiros. É o repúdio gaúcho contra os tecnocratas, patrões ou empregados que só sabem explorar o nosso povo.

Para que tudo corresponda aos anseios gaúchos, nós remanejamos as teses sociológicas, adaptamos os nossos costumes, buscamos uma forma capaz de conciliar as enormes diferenças existentes entre as classes sociais e os grandes interesses de cada um. E conseguimos.

Temos a intenção de sermos práticos e não utópicos, pois pretendemos tornar realidade nossas aspirações. Buscamos a fusão das classes sociais mediante instrumentos governamentais capazes de romper com as enormes barreiras, contrárias às mudanças propostas. Somos capazes de organizar nossa gente evitando-se a concentração abusiva da renda e da terra sem o empobrecimento da classe, seja ela qual for.

Na aplicação do nosso sistema ou programa ideológico de governo, o excedente dos lucros de cada um reverterá em benefício da reconstrução dos inúmeros setores sociais prejudicados pela interferência abusiva do sistema brasileiro na República do PAMPA. O sistema dará todas as condições para a completa recuperação social e econômica dos cidadãos abandonados pela sorte e por causa da política espoliadora do governo e sistema ideológico do Brasil.

De nada valerá simplesmente nos separarmos do Brasil, se continuarmos incorrendo em seus males e erros, tendo a sua mesma filosofia de trabalho, pois se assim ocorrer tudo não passará de mais um sonho passageiro. Sabemos que se torna necessária uma completa mudança nos conceitos e nas decisões, para que de fato cheguemos a um ponto de conquistas sociais, econômicas e educacionais para a nossa gente. Todas as experiências passadas devem servir como um alerta geral, onde a cada sinal de retrocesso novas decisões devem ser tomadas com o fim específico de sanar os males surgidos.

Sabemos que a retenção do dinheiro ou do capital, das terras e das riquezas em poder de alguns privilegiados, torna o ser humano um submisso aos seus próprios bens patrimoniais e sempre propenso a conquistar o que de direito moral não lhe pertence. Assim, as riquezas do PAMPA irão descentralizando cada vez mais, com o passar dos tempos, com a evolução da nossa cultura e com a valorização do ser humano e do espírito de cada um.

Temos a absoluta certeza de que, mesmo sendo um rico e poderoso proprietário, o cidadão gaúcho, se honesto e sensível aos problemas sociais, que enxerga esta multidão de problemas provenientes das disparidades existentes entre a nossa gente, certamente dará todas as condições para a difícil missão de nos tornarmos independentes e para modificar o atual quadro de tristezas que tão mal nos rege.

Nós entendemos que para obter pleno sucesso em nossas iniciativas sociais devemos limitar a extensão da propriedade privada, sem extingui-la, mas, ao se controlar os passos dos mais apressados, dando vida aos que a estão perdendo ou não a possuem e regrando o comportamento daqueles que respiram demais. É justo que se mantenham muitas conquistas materiais por merecimento e capricho, mas se torna absolutamente necessário sacrificar os interesses de uma minoria para podermos ajudar de forma concreta na recuperação de uma enorme legião de pessoas abandonadas que se aglomeram montanhas acima, na beira dos lagos e dos rios, por todos os lados, nas vilas e nas favelas. Mas ninguém será empobrecido pelo fato de contribuir decisivamente na solução destes inúmeros problemas; pelo contrário terão direito de ter o que desejam com a condição de que tudo seja conquistado com honestidade e sem o extremo sacrifício de nenhum ser humano. Não há nenhum mal em pretendermos ser justos para com todos afinal, esta é uma regra da religião judaica, cristã, islâmica, budista, hinduísta, xintoísta, confucionista, e seus seguidores sabem que é ao espírito que devemos devotar amor e paixão e nunca a bens materiais e monetários que tantas desgraças têm causado ao longo do passar dos milhares de anos a fio.

Provavelmente sessenta por cento (60%) do povo gaúcho não tenha condições para comprar mercadorias por falta de dinheiro e havendo uma farta distribuição das riquezas e das oportunidades, o próprio comerciante, o industrial, ou os outros profissionais liberais verão entrar muito mais dinheiro em suas caixas, pois o povo comprará muito mais. O país arrecadará mais impostos para construir as obras estatais de maior envergadura. Entendemos que ninguém deva receber o que não mereça, mas todos devem dar chances para todos. De nada adianta frequentarmos uma igreja, se nossos atos durante a vida só têm sido de espoliação, de enganos e de perversidades. Todos contribuirão para tornar a República do PAMPA uma grande e poderosa nação, conduzida pela paz, pela prosperidade e pela justiça estendida aos seus compatriotas.

Pretendemos descentralizar completamente as riquezas da nação, sejam elas materiais e até salariais. Também pretendemos descentralizar o sistema de governo nacional, dividindo-se o país em oito (8) províncias, ou onze (11) caso Santa Catarina aderir ao nosso movimento, tendo cada uma administração própria, com governos escolhidos pelo povo e demais secretarias indispensáveis.

Realinharemos o sistema de preços das mercadorias, muito embora a livre iniciativa é que tenha esta incumbência, desde que bem intencionada. O sistema de câmbio e financeiro do PAMPA terá características próprias. O sistema salarial será profundamente alterado, tendo em vista os problemas decorrentes do sistema utilizado pelo Brasil imperialista. Não teremos dívidas externas para nos torturar constantemente e quem ditará acerca do sistema ideológico do PAMPA será o seu povo. Não sacrificaremos ninguém para encher os cofres, sejam nacionais ou estrangeiros. O PAMPA terá sua própria moeda em circulação com o nome de “joia”, também dividida em centavos. Teremos nosso próprio e moderno Judiciário, Executivo e Legislativo. 0 Hino Nacional será entoado com ardor e paixão.

O PAMPA buscará acomodar todos em seus novos lares em bem pouco tempo, tendo empregos, alimentação, educação, saúde e lazer para todos. Vamos acomodar em terras ociosas todos os que se dispuserem a trabalhar na terra e buscaremos imigrantes brasileiros e europeus interessados em produzir no PAMPA como novos patriotas desta terra. Com o advento da República do PAMPA, queremos ver todos os prédios antigos e novos bem pintados, tendo os viadutos bem conservados, demonstrando capricho, bom gosto para com tudo e para com todos.

Nossa nação terá o nome de PAMPA GAÚCHO, numa homenagem sincera ao local dos antigos gaúchos, que eram descendentes dos pampas, onde habitavam de forma nômade, consagrando-se com o seu espírito de valentia e bravura. Nossas fronteiras já são conhecidas e poderão ser aumentadas se o querido povo de Santa Catarina se unir ao novo país. Quem sabe até o Paraná mostre-se interessado numa união com esta nova nação. A bandeira do PAMPA terá as cores vermelha, amarela, preta e azul.

A independência do nosso território não significa rompimento puro e simples com o povo brasileiro, mas muito pelo contrário, sabedores que somos da existência de pessoas muito queridas neste país, nós manteremos relações fraternas e amistosas, buscando um grande intercâmbio com o Brasil, onde manteremos nossas fronteiras abertas para um livre comércio, com o povo gaúcho sempre comprando as mercadorias de sua necessidade do povo brasileiro. Faremos parte da comunidade brasileira de nações. O PAMPA estará buscando a sua integração junto aos países da América do Sul, se integrando na área comercial, industrial, desportiva, cultural e socioeconômica. Nossas fronteiras jamais estarão fechadas para um comércio limpo, feito com honestidade. Mas estaremos fechados para o contrabando, para o tráfico de drogas e para os roubos dos mais diversos. Estes transgressores sentirão o peso da justiça gaúcha.

A nossa independência significa plena autonomia administrativa, sem vínculos com esta ou aquela ideologia política, com este ou aquele país, mas voltado unicamente aos interesses do povo do PAMPA e da integração latino-americana. Evidentemente, os laços seculares manterão os povos do PAMPA e do Brasil sempre unidos em todas as situações. Temos a absoluta certeza que seremos recebidos de braços abertos por todas as nações do mundo, veremos as nossas seleções e clubes desportivos trazendo títulos internacionais de outros continentes para o solo dos gaúchos.

Manteremos intenso intercâmbio com todos os países dos outros continentes e que estejam sempre dispostos a vender e comprar nossos produtos. Nossos portos terão movimentos de navios antes jamais visto na terra dos gaúchos. Nossos aeroportos terão impressionante movimento de aviões. O Banco do PAMPA será rico da mesma forma que o povo gaúcho o será também.

Teremos nossa própria marinha mercante e de guerra. Manteremos um muito bem montado exército e a nossa viação aérea será fortalecida por novos aviões, tanto comerciais quanto de guerra. O próprio PAMPA fabricará seus equipamentos como aviões, navios ou fragatas.

0 PAMPA abrirá suas portas ao investimento estrangeiro, sem, contudo, deixar pontos não claros, que acabem por nos tomar a soberania nas decisões de maior importância.

Politicamente pretendemos ser um exemplo de democracia aos povos do mundo inteiro, sendo que a cada fim de ano um plebiscito dirá se o governo deve ou não continuar no poder e se deve ou não ser convocada uma nova eleição geral. Nosso sistema político-ideológico será pluripartidário, tendo até no máximo dez (10) partidos habilitados para concorrerem às eleições gerais.

Chegou o grande momento, o momento decisivo para as nossas aspirações, onde todos os segmentos sociais, culturais, religiosos, raciais, judiciais, políticos e militares são conclamados para esta grandiosa investida rumo a nossa libertação territorial. Com a compreensão de todos os gaúchos, seremos uma outra poderosa nação, tendo a sua própria Constituição, feita com mais justiça e presteza, com um governo voltado para o social, ao progresso da ciência, da tecnologia e da informática para a glória e felicidade geral do povo da República do PAMPA GAÚCHO.

VIVA A LIBERDADE, VIVA A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA DO PAMPA GAÚCHO!

Fonte: https://www.pampalivre.info/manifest.htm

Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Membro da Resistência Sulista e Dono do blog Contra o Sistema Mundial. Também um ativista ferrenho pela reunificação do Uruguai e do Rio Grande do Sul como uma só pátria sob o estandarte de José Artigas.

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