O liberalismo como expressão sádica em Dostoiévski

O liberalismo como expressão sádica em Dostoiévski

Há uma cena em “Crime e Castigo” particularmente interessante e sintomática no que tange às críticas do velho Dostoiévski ao liberalismo ocidental. Svidrigailov, um pederasta que se envolveu sexualmente com uma garotinha menor de idade, se encanta e se apaixona pela irmã de Raskolnikov, o protagonista.

Ela o rejeita. Sabendo de seu passado pantanoso, o considera um homem repulsivo e jamais seria capaz de casar com ele, mesmo vivendo em miséria absoluta e sabendo que o casamento poderia salvá-la da desgraça material.

O ápice do conflito do personagem aparece no romance quando ele decide, em total desespero, cometer suicídio. Svidrigailov caminha pela rua com uma pistola no bolso. Depois de uma caminhada curta, cola o cano gelado da pistola na testa. Um guarda que estava de passagem vê a cena e, de longe, tenta impedi-lo.

É inútil. Svidrigailov está decidido. Ele grita para o guarda, minutos antes de puxar o gatilho, que escolheu a liberdade e vai para os Estados Unidos. O guarda não entende nada e só assiste a bala atravessar o crânio do desconhecido. Essa é uma das críticas mais viscerais ao liberalismo econômico que alguém já escreveu. Se você escolhe a liberdade, os Estados Unidos e o capitalismo, você está escolhendo a morte.

George Steiner, em seu livro “Tolstói ou Dostoiévski”, faz uma associação que até então tinha sutilmente me escapado e, por razões sobre as quais já falei em outra ocasião, fui até injusto no julgamento.

Eu li “Os 120 dias de Sodoma” e não fiquei nada impressionado, realmente a obra inteira é um panegírico de excêntricos parafílicos e apresenta indivíduos profundamente atormentados por um desequilíbrio feroz em suas próprias sexualidades. Nada mais que isso. Julguei a obra superficial, e ela de fato é, mas talvez seja essa mesma a sua função.

Mas observem a influência de Marquês da Sade na cosmovisão de Dostoiévski e os frutos que ela rendeu, sobretudo na sua crítica ao ocidentalismo russo.

Foi de Balzac, Dickens e George Sand que ele tirou a sua noção de “cidade infernal”, com suas vielas sujas e seus quartinhos claustrofóbicos, mal iluminados e úmidos, mas foi do “divino Marquês” — Rimbaud o chamava assim — que ele absorveu a lição mais profana que pode existir: a agonia de uma criança molestada é a suprema ofensa a Deus.

Vejam que os romances de Dostoiévski, e aqui me refiro a praticamente TODOS ELES, sempre trazem na gênese um elemento sádico declaradamente asqueroso, sendo frequente a presença de personagens homens mais velhos e, claro, bêbados, que cometem as mais infames vilezas contra criancinhas inocentes sem sentir culpa alguma. Alguns exemplos:

1. Svidrigáilov: já citado no início do texto. Ele viola duas menininhas menores de idade, fazendo com que uma se afogue e a outra se enforque, tamanha a repugnância que sentem pelo ato. Ele também conta com tranquilidade que já chicoteou uma criança até a morte, mas esse detalhe macabro aparece apenas nos rascunhos de Dostoiévski, ele omitiu no romance.

2. Liza Hohlakova: que conta a Aliósha que sonhou com a crucificação de uma criancinha e sentia sombria satisfação ao ouvir seus torturados gemidos enquanto se lambuzava com “compotas de abacaxi”.

3. Netochka Nezvanova: a protoganista que dá nome ao romance se sente sexualmente atraída pelo seu próprio padrastro.

Eu não vou me estender muito nessas descrições porque são muito pesadas, se quiserem saber mais, leiam o próprio Dostoiévski. De fato há um padrão de repetição lúgubre em suas obras sobre casos como esses citados, até em suas novelas ou contos, é um tipo de obsessão que ele tem. Eu creio que seja também uma crítica ao liberalismo ocidental, uma maneira que ele encontrou para dizer que quem escolhe as liberdades individuais e o capitalismo chega à última fase da degeneração moral, que é justamente a fase em que o estuprador de criancinhas se encontra.

Foi possivelmente a influência de Sade que permitiu que ele revelasse essas transgressões em forma de crítica ao liberalismo. O romance do século XIX evitou essa exploração mais patológica do submundo das aberrações sexuais, com exceção da literatura de horror em alguns poucos casos e a erótica, mas, ao meu ver, é Dostoiévski quem consegue inserir esse universo no gigantesco cosmo da experiência humana em toda a sua dimensão política, alcançando esferas que Sade sequer conseguiu vislumbrar.

Autor: Mateus Pereira

Redação

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Administrador da verdadeira dissidência política da América Austral.

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