A Terceira Posição de Perón na Era da Quarta Teoria Política de Dugin

A Terceira Posição de Perón na Era da Quarta Teoria Política de Dugin

Por Jorge Cuello

Tradutor Guilherme Fernandes / Resistência Sulista

Era agosto de 1945 quando uma das mais cruéis operações militares de que se tem memória ocorreu em Hiroshima e Nagasaki, cidades do Japão. Ambos foram destruídos com bombas atômicas, armas horríveis usadas pela primeira vez na história da humanidade.

Os reflexos intensos dos átomos em decomposição, como luzes de um novo amanhecer nos tempos dos homens, anunciaram o nascimento da Era Atômica. E sobre suas cinzas radioativas, os vencedores assinaram os Atos que puseram fim à Segunda Guerra Mundial. Com ela, a Modernidade também chegou ao fim de seu ciclo histórico. A partir de então, a ultra tecnologia e seus padres tecnotrônicos estariam encarregados de substituir os grandes poetas e músicos, estrategistas, estadistas, papas, filósofos e notáveis ​​artistas de todas as disciplinas que aquele tempo deu à humanidade. A New Frankfurt School, transferida para os Estados Unidos, se encarregaria de lançar as bases teórico-práticas para a dissolução definitiva daquele mundo. e preparar os povos para o novo sistema que o sucederia, o governo mundial neoliberal e sua ala cultural, o progressismo neomarxista e globalista gramsciano, configuram a nova era, a era pós-moderna.

Desse novo mundo que nasceu iluminado pelo cogumelo atômico, surgiram duas potências formidáveis, impetuosas como leões sedentos de territórios e de mulheres: a Rússia e os Estados Unidos da América, duas superpotências extra europeias. Um euroasiático e um americano. Ao longo dos anos percebemos que eles realmente começaram a montar algo inimaginável naquela época, um espetáculo mundial, nunca visto antes: Dividir artificialmente o Mundo em duas esferas de influência para que, como dois polos dialéticos, pudessem preparar o terreno para um confronto que nunca existiu no topo e que, nos níveis mais baixos da pirâmide da Potência Mundial eles os originaram apenas para restringir as nações que cada um subjugou em sua zona exclusiva. Embora os dois novos impérios negociassem entre si e concordassem quanto às cúspides de continuar com a charada dialética dos caçadores e dominar o mundo à vontade. Assim, diz Perón, “os russos invadiram a Tchecoslováquia com o OK dos ianques e estes invadiram o Panamá com o OK dos russos”.

Primeira conclusão: também é evidente que se analisarmos os fatos a que nos referimos sem ideologismos ou preconceitos, quem foi derrotado na Segunda Guerra foi na verdade a Europa, toda a Europa. E não apenas os países centrais e sua vanguarda, a Alemanha.

Isso realmente foi um retrocesso ou, se preferir, um desvio da evolução histórica da humanidade, que até 1939 tinha a locomotiva universal na Europa.

Porque a Europa estava em uma fase de transformação da ordem demoliberal. Novos Estados tradicionalistas que, baseados nas tradições milenares de seus povos, na religião que unia seus homens, nas novas hierarquias sociais, criaram uma nova organização nacional com novas instituições de acordo com as características de cada uma delas. Assim, uma nova ordem europeia, estruturada por estados fortes e, a novidade, planejadores da economia nacional, emergia como poderosa e realizadora. Os movimentos de massa, nacionalistas e populares em que se baseavam rejeitavam tanto o liberalismo quanto o marxismo. A refundação dos Estados implica a existência de uma potência fundadora interna na nação em questão, independente, soberana, capaz de realizar com êxito a obra. Este conjunto de potências nacionais europeias tornou-se assim perigoso para as potências dominantes, liberais e marxistas. Em meu modesto entendimento, este tem sido, considerado hoje aqueles fatos, o verdadeiro ponto crucial político dessa questão. Porque a política é sempre uma luta de poderes em primeiro lugar. Eu discordo que é uma luta ideológica. A ideologia está a serviço das estratégias de poder, não o contrário.

Tudo isso foi aniquilado pelos vencedores da guerra. Eles destruíram povos e culturas, Estados, instituições, classes sociais, grupos étnicos e tradições. Aquela Europa pré-guerra foi literalmente arrasada.

Perón refere-se a esta realidade em “La Hora de los Pueblos” (1) Nesta obra, o General disse que tanto o comunismo como o fascismo, o nacional-socialismo,

O sindicalismo nacional espanhol, os socialismos nacionais e os comunismos de várias cores, foram todos manifestações de uma nova concepção de organização política e, consequentemente, econômica e social dos Povos que, lançados pelo liberalismo a viver competindo entre si, todos contra todos procuraram recuperar a felicidade perdida de viver em comunidade, todos com todos e respeitando o pessoal.

O General Perón, que foi um militar de carreira especializado em Estratégia, viveu pessoalmente, como adido militar das embaixadas argentinas na Europa, parte daquela rica experiência do Velho Mundo. Obviamente, ao retornar à nossa terra natal em 1942, ele o fez determinado a tentar moldar a Argentina ao mundo que já em 1943 se aproximava desesperadamente. Mas, como evidenciado por suas ações subsequentes, ele concebeu uma proteção política e institucional que salvaguardaria nossa nação de possíveis tensões e lutas entre a União Soviética comandada pela Rússia e o mundo demoliberal liberal partidário comandado pelos Estados Unidos. A Terceira Posição aborda e resolve esta ameaça, ideologicamente colocando a Argentina acima do socialismo marxista e do liberalismo capitalista que esses poderes impuseram como necessário em suas respectivas zonas de influência e ocupação.

Diz o general Perón, “é evidente que nenhuma dessas duas soluções, nem a liberal nem a marxista, nos levaria a nós argentinos a alcançar a felicidade que ansiamos por nosso povo. Foi assim que decidimos criar as novas bases de uma Terceira Posição que nos permitisse oferecer ao nosso povo um outro caminho que não conduzisse à exploração e à miséria. Em suma, uma posição nitidamente argentina, para os argentinos, que nos permitiu seguir de corpo e alma o caminho da liberdade e da justiça que sempre nos apontou a bandeira de nossas tradicionais glórias ”(2).

Perón desenvolve as concepções em que se funda a Nova Argentina, que, a partir de 1946, preside Essas Experiências Europeias, Conhecimento, Compreensão e o amor que passou a ter pela população argentina graças às vivências na passagem pela sede da Pátria e à inspiração e guia espiritual da Doutrina de Jesus Cristo, encontram na inteligência de Perón a cristalização completa de uma nova filosofia política autenticamente argentina, muito afastada “dos dois polos, o liberal e o marxista”, e isso deve levar inevitavelmente à criação de uma nova organização institucional. Do contrário, o peronismo nunca conseguirá completar seu ciclo. Isso é vital para o justicialismo. Mas também, advertimos, para a Quarta Teoria Política de Dugin.

Alexander Dugin, um filósofo russo com enorme influência no momento em líderes, pensadores e analistas políticos europeus e eurasianos, um homem próximo às mais altas esferas de poder na Rússia de Putin, é hoje a referência mais importante da Quarta Teoria Política que possui tornou o mundo inteiro conhecido.

Esta Quarta Teoria parte de um “não”, como Dugin gosta de dizer: não ao liberalismo e não à modernidade.

E eis que não só o liberalismo é enfaticamente mas fundamentalmente rejeitado, sua causa e origem: a Modernidade e seus engendradores, especialmente as nações e seus Estados, o materialismo e o afastamento de Deus, enfim, o esquecimento da Tradição.

Aqui nós, americanos, temos um problema fundamental, realmente sério. Porque a Argentina e as nações da América nasceram para uma vida política independente na modernidade e, portanto, como um Estado Nacional. E eles não podem ser concebidos de outra forma a não ser como uma nação. Se um ser nasceu leão, deve ser concebido e apreciado como leão, mesmo que não gostemos do lugar e da época em que nasceu. Por isso a Terceira Posição Justicialista diz respeito às nações. É propício para a Argentina e seu interior sul-americano. As nações irmãs do continente podem fazer sua a Terceira Posição, mas sempre “de sua nação”, por sua grandeza, felicidade e liberdade. A nação, para Perón, não é apenas consequência da modernidade. É uma etapa da evolução da organização humana que se inicia com o homem isolado e sua família, o clã, as tribos, a fratria, a cidade, o Estado, o Continentalismo e levará ao Universalismo.

E este é um dos principais aspectos que Alexander Dugin critica o justicialismo.

Ele o aponta como “Moderno”, seguindo a clássica divisão dos tempos históricos. E diz isso, já que a “modernidade” é o tempo dos estados-nação, surgidos após o declínio dos impérios tradicionais em um processo que ganhou força decisiva com a Paz de Westfália de 1648, o justicialismo também é fruto da Modernidade. Portanto, não é útil para superar o liberalismo e o marxismo.

Mas concordemos em analisar o próprio Dugin, de acordo.

Em primeiro lugar, devemos saudar e reconhecer o filósofo russo. O mundo precisa urgentemente de filósofos desse calibre, e os russos parecem ter começado primeiro.

Dugin lança sua Quarta Teoria Política como a superação da modernidade e suas excrescências, entre elas, como disse acima, as nações. Mas sua teoria também é apresentada como uma superação do homem moderno e dos sistemas que se baseiam nesse homem: a Primeira Teoria Política ou Liberalismo, a Segunda Teoria Política, o Marxismo e a Terceira Teoria Política, o Fascismo. O Fascismo é definitivamente derrotado na Segunda Guerra Mundial, o marxismo em 1991 com a queda da União Soviética e apenas o liberalismo continua em vigor como único vencedor. Fortalecida e expandida em todo o mundo, está hoje em transe para sua nova etapa denominada neoliberalismo de acordo com a nova era pós-moderna.

Dugin acredita que nenhuma dessas Teorias Políticas pode superar a modernidade, pois são filhas de si mesma e têm os mesmos fundamentos: o homem-sujeito de Descartes.

Portanto, a Quarta Teoria Política deve desconstruir a modernidade e fundar uma nova era baseada em tradições, sociedades hierárquicas, castas, fé religiosa, costumes comunitários antigos e saudáveis, enfim, retornar à sociedade tradicional. (3) A forma política seria a organização de vastos territórios, não mais nacionais, mas civilizacionais. E a Rússia, segundo Dugin, é um espaço geopolítico civilizador. Outro seria o Islã, outra Europa e assim o mundo.

Suas expressões dão um vislumbre de uma impressão favorável aos impérios pré-modernos, visto que estes foram, fundamentalmente, “espaços político-culturais”.

Assim, podemos concluir que A Quarta Teoria Política está fundamentalmente orientada para estruturar a reorganização do espaço geopolítico eurasiano e, com ela, o papel de liderança da Rússia. Acompanhado ou não da China. Isso será visto. Eu pessoalmente tenho minhas dúvidas. Mas esteja a Rússia com ou sem China, ela deve necessariamente adotar semelhanças com uma política imperialista centralista de estilo pré-moderno. O mesmo vale para a China. E esta futura realidade possível é definida por duas condições geopolíticas de enorme alcance: os infinitos espaços geográficos russos e o enorme espaço chinês, povoado por uma demografia excepcional de mil quatrocentos milhões de seres humanos. Essas situações geopolíticas não podem ser governadas se não for por um estado centralizado no estilo imperial pré-moderno. Sempre foi assim. Afinal, o czar foi substituído não por seu herdeiro dinástico, mas por uma nova geração de czares do único partido, dono do Estado russo. No fundo, Dugin viu com absoluta clareza e sem preconceitos ideológicos a realidade concreta das possibilidades geopolíticas russas, ou seja, a forma que o espaço geográfico russo deve ocupar politicamente.

A Terceira Posição do Justicialismo Nacional é outra coisa, o resultado de outra realidade. Está fundamentalmente orientado para a organização política da comunidade nacional argentina e exposto como uma fonte de inspiração para a América do Sul. Mas sempre partindo de situações nacionais abrangentes.

A Terceira Posição é nacional, porque “nacional” é o espaço geopolítico que é ocupado e ordenado. E se baseia na Soberania Política, mãe da Independência Econômica e da Justiça Social. Três objetivos estratégicos que o Justicialismo busca especificar através do Estado Novo e da Comunidade Organizada.

A primeira impressão ao considerar ambas as teorias é positiva. Consiste em que a Quarta Teoria de Dugin é para a Europa e a Eurásia o que a Terceira Posição de Perón é para a América hispânica. A Quarta Teoria não pode inspirar a América, exceto em certos conceitos aos quais me refiro a seguir, porque a Europa era outro mundo, no qual os americanos não vivem. Dugin pensa como um eurasiano. Da mesma forma, a Terceira Posição de Perón pode orientar, contribuir com conceitos, também apenas em certos aspectos dessa nova teoria. Refiro-me às concepções e conquistas justicialistas em relação à Justiça Social, à organização interna como uma Comunidade Organizada e mesmo às instituições políticas criadas pelo Justicialismo e expostas no Modelo Argentino.

Mas não devemos perder de vista que o que é fundamental para o que estamos tratando é que a questão do conflito político em nosso continente envolve a consolidação das nações herdeiras do Império Espanhol.

Hoje em nossos dias, no início do mundo pentapolar (segundo meu saudável entendimento) e de profundas modificações na geopolítica das potências mundiais, vale, portanto, para a América a formação de blocos defensivo-produtivos entre nações irmãs soberanas. Espero que possamos criar as formas institucionais para organizar o espaço comum civilizador, como Dugin o chama e aponta nosso Alberto Buela: a América Hispânica e seus vice-reinados. (4) Mas, para isso, a reorganização institucional interna das nações americanas torna-se fundamental e decisiva, e talvez urgente, com o objetivo de superar o demoliberalismo democrático-partidário, econômico e institucional e o marxismo Gramsciano progressista, plataforma cultural sobre a qual o neoliberalismo está Copa do Mundo, hoje arraigada em nossas sociedades. A tão alardeada “integração” e suas formas e instituições, uma vez que caiu nas mãos das organizações transnacionais do globalismo e operada por corporações multinacionais, tornou-se uma farsa. Uma farsa trágica. Mais um disfarce para continuar explorando as cidades e roubando suas riquezas.

Há outra diferença originada na história e na composição das sociedades euroasiática e americana. As teorias eurasianas, no fundo, precisam de uma aristocracia nobre lúcida e muito responsável, valente e prudente, sã, de profunda honestidade religiosa, de grande temperamento e inteligência, capaz de governar e liderar desde um Estado centralista, espaços com populações que ultrapassam bilhões de seres humanos e vastos e infinitos territórios de milhões e milhões de quilômetros quadrados. Essa é sua tradição antiga.

A Terceira Posição Justicialista e o Modelo Argentino, por outro lado, são concebidos para organizar os Povos dessas latitudes americanas, em instituições virtuosas que dão frutos necessariamente na Comunidade Organizada e tornar realidade a Soberania Nacional, a Independência Econômica e a Justiça Social, única forma que vemos na América de alcançar a felicidade e a grandeza de nossos povos. Acredito que a Terceira Posição de Perón e a Quarta Teoria Política de Dugin não se excluem mutuamente, mas convergem na criação de sistemas políticos-culturais que ultrapassem definitivamente o marxismo em todas as suas variantes, incluindo o progressismo pérfido, e o liberalismo em todas as suas manifestações.

Notas:

anotações

(1) Diz Perón” . o século XX começa com o sinal de grandes lutas e, como tal, impulsiona o frenético desenvolvimento da ciência e da evolução. É por isso que a primeira metade deste século com suas duas grandes guerras e as revoluções do comunismo, do fascismo e do nacional-socialismo, iniciaram a era atômica e avançaram para a “hora dos povos”.- Juan D. Peron, A Hora dos Povos, Ed. Norte, Buenos Aires, 1968.

(2) Juan D. Perón, Mensagem para a IV Conferência de Países Não-Alinhados, Setembro de 1973, em Diego Mazzieri, nem ianques nem marxistas, peronistas!, Ed. del Oeste, Buenos Aires, 2003

(3) Alexander Dugin, entrevistado por Anatoly Kizichef para tsargrad TV., Moscou, 22 de janeiro de 2017

” Se rejeitarmos as leis da modernidade, como progresso, desenvolvimento, igualdade, justiça, liberdade, nacionalismo e todo esse legado de três séculos de filosofia e história política, então há uma escolha. ….Esta é a sociedade tradicional. Um dos movimentos mais simples na direção da Quarta Teoria Política é a reabilitação global da Tradição, do sagrado, do religioso, do que está relacionado à casta, se preferir, da hierárquica e não da igualdade, justiça ou liberdade. Rejeitamos tudo junto com a modernidade e reformulamos tudo completamente…”

Quero deixar claro que ele não nega justiça, liberdade, etc. mas propõe reformular esses conceitos da tradição.

(4) Alsina Calvés, José, La Razón Histórica, nº 27, Múrcia, 2014.

Jorge Cuello é formado em História, Rosário, Província de Santa Fé, Argentina [email protected]

Fonte: La Tercera Posición de Perón en la era de la Cuarta Teoría Política de Dugin | Geopolitica.RU

Guilherme Fernandes

Guilherme Fernandes

Membro da Resistência Sulista e Dono do blog Contra o Sistema Mundial. Também um ativista ferrenho pela reunificação do Uruguai e do Rio Grande do Sul como uma só pátria sob o estandarte de José Artigas.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *