Dugin: Horizonte do Império ideal

Dugin: Horizonte do Império ideal

Às vezes, pode-se ouvir a crítica de que a Quarta Teoria Política não dá uma imagem positiva do futuro, ao invés disso operando ao contrário com o que parece a maior das “abstrações”. Gostaria de responder a essa crítica e especificar como vejo o futuro.

O que segue abaixo não é, naturalmente, mais do que uma metáfora científica. No entanto, aqui está como a sociedade e o mundo devem ser após a vitória, ou mesmo no curso da luta pela Quarta Teoria Política.

A sociedade deve estar estruturada na forma de uma hierarquia baseada em um princípio eidético-existencial, ou seja, o grau de intensidade com que se vive o ser eidético deve estar no centro do critério hierárquico. Isto diz respeito a nada mais nada menos que aos diferentes níveis ou graus da existência dos Anjos. Deve-se aceitar o dogma de que não são as pessoas que vivem, mas um Anjo que vive através de nós. Quanto mais brilhante e mais intenso ele vive através de nós, mais alto o nível hierárquico daquele através de quem o Anjo vive e, como segue, menor o elemento individual daquele através do qual ele vive. O Anjo e o ego estão presentes em uma pessoa em proporção inversa: quanto maior o Anjo, menor o ego. Quanto mais modesta e ascética uma pessoa é e quanto menos indivíduo ela é, mais alto é o nível que ela ocupa na verdadeira hierarquia. Nas mais elevadas pessoas não deve haver nada individual, egoísta e material. Sua riqueza deve ser reduzida a um mínimo, minimizada. Aqui o monasticismo é um modelo antropológico. A autoridade, o nível hierárquico e o poder aumentam proporcionalmente com a abolição do elemento individual e o brilho que emana do esforço ascético. Um bom governante é aquele que não quer ter nada para si mesmo. Em vez disso, ele tem tudo, mas tomado em agregação e eideticamente, enriquecendo ao máximo o aspecto interior da existência. Algo semelhante foi encarnado na Idade Média na teoria do “segundo corpo do rei”. [1]

As pessoas que conheciam Stálin intimamente darão testemunho sua extrema simplicidade de ser. Por exemplo, eles dirão como ele, no auge de seu poder, preferia dormir em uma cama de campanha. Outro governante comunista de escala imperial, Mao Tsé Tung, tentava nunca encostar em dinheiro, que ele odiava fisicamente. A própria idéia de dinheiro ou de encostar nele lhe causava dor física. Estes são sinais de que uma presença angélica está próxima. Estas são também as marcas de um bom líder. Qualquer atração pela materialidade, naturalmente, causaria dor e desgosto às figuras superiores da Platonópolis construída segundo princípios existenciais. Por esta razão, em muitas religiões, sacerdotes e governantes eram proibidos de se envolverem em trabalho físico e às vezes até de tocarem em objetos materiais em sua forma natural, ou seja, antes de serem trabalhados de forma sagrada. Esta proibição do trabalho físico tem persistido até os dias atuais na Ortodoxia em relação aos padres.

E assim, no cume está o rei filósofo, que representa um ser em que não há individualidade. O rei filósofo, um czar filosófico, não difere essencialmente da encarnação deste anjo pessoal. Ele é uma forma enquanto tal. De fato, se olharmos para a idéia monárquica, imperial, vemos ecos desta teoria, na qual o rei era o pólo metonímico de toda a sociedade, de toda a cultura e de todo o povo. O rei é um anjo, ele é o povo inteiro. Ele é uma verdadeira pessoa, que é superior tanto ao indivíduo quanto ao coletivo ou à sociedade. Daí a sacralização dos reis ao ponto de sua deificação no Antigo Egito, na Babilônia, no Antigo Irã, etc.

O fato de qualquer pessoa ser um rei em potencial é trazido à mente na Ortodoxia pela cerimônia de casamento, quando os noivos sustentam a coroa imperial. Em sua natureza, o homem é homo regius. Ele é tanto um rei e um Anjo quanto é humano.

O Estado deve ser governado pelo rei filósofo, que é absolutamente transparente, desprovido de quaisquer propriedades individuais. Seu elemento individual deve ser tão minúsculo que seria desejável ocultar tudo reminiscente dele, inclusive seu corpo, sua imagem, etc. Seria melhor se ninguém visse o rei filósofo como algo externo. Todos deveriam reconhecê-lo como um governante interior, como o “convidado interno”.

O rei filósofo deve estar oculto. Além disso, sua existência deve ser tão intensa que transcenda os limites da existência. Ele agirá no não agir (o ideal taoísta do governante perfeito é aquele que realiza o não agir, ou Wu-Wei). Considerando sua profunda conexão com o apofático, ele não existirá no existir ou, pelo contrário, existirá não existindo. O rei filósofo é como se não existisse, e ele é não sendo. Ele deve ser fácil, transparente, sempre aberto ao abismo representado por ele na Platonópolis da Quarta Teoria Política. Talvez ele se comunique com seus súditos por trás de uma cortina, das profundezas de uma caverna, ou mesmo através de um oráculo. Ele não deve falar nem ficar em silêncio, mas apenas dar sinais, se é assim que devemos parafrasear o que Heráclito disse no fragmento 93 da Pítia Délfica: – ὁ ἄναξ μαντεῖόν οὗ τὸ μαντεῖόν ἐστι τὸ ἐν Δελφοῖς, οὔτε λέγει οὔτε κρύπτει ἂλλὰ σημαίνει. Para Heráclito é importante que οὔτε λέγει οὔτε κρύπτει ἂλλὰ σημαίνει, ou “não pronuncia nem esconde seu significado, mas o mostra por um sinal”. O significado está localizado entre as palavras e o silêncio. O rei filósofo opera com significados gestuais, em semi-silêncio, no sussurro régio leve a partir do qual o significado é transmitido tão diretamente quanto o espírito sopra.

O rei filósofo está no centro da Platonópolis. Ele é a Platonopolis. Nele, como em um lugar sagrado, ocorre a epifania do homem.

Além disso, o rei filósofo será cercado por outros filósofos, por sacerdotes sagrados que vivem um ser angélico. Estes podem ser monges, ascetas, contempladores, sonhadores, matemáticos ou pessoas imersas na contemplação do inútil absoluto de que ninguém precisa. Aristóteles disse que existe um conhecimento útil (φρόνησις) que se multiplica com os anos e é máximo na velhice razoável, e existe o inútil (σοφία) que é acessível imediatamente, independentemente da idade, e não é incremental ou decrescente – que não serve para outra coisa, mas é auto-suficiente e digno em si mesmo. Para Aristóteles, o conhecimento inútil, a sabedoria, ou σοφία era o mais alto e aristocrático. Os governantes da Platonópolis devem ser personalidades sóficas.

Os filósofos voarão e cavalgarão golfinhos, que também serão filósofos.

Acima de todos, voará o Grande Corvo.

Abaixo deles estão os berserkers, os chefes guerreiros. Eles são os Guardiões, os “custódios do ser” (Heidegger). Os guerreiros serão extremamente assustadores, aterrorizantes ao ponto de ninguém querer enfrentá-los. No exército haverá dragões de batalha e agressivos galos de briga.

Quem está mais baixo? Os artesãos? Propomos não discernir tal casta de forma alguma. A terceira casta é a dos Poetas e Agricultores.

Produção é poesia. Artocracia (princípio Wagneriano). O povo deve se alimentar de produtos artísticos.

A arte é a casca áspera de uma idéia, sua materialização, sua plasmação. Em nossa Pólis, qualquer objeto deve ser, antes de tudo, belo. Objetos não belos estarão sujeitos à destruição.

A economia será abolida e os economistas serão demitidos.

A propriedade privada também será abolida. O sol operará. Terra e tempo pertencerão ao eidos. Não haverá bancos, não haverá grandes propriedades. Rilke e Heidegger falaram de como “transferir os pesos das mãos do Comerciante para as mãos do Anjo”.

Haverá carros, mas apenas carros muito, muito belos.

A arte da dança será uma das artes mais importantes. A dança se tornará um dever político. Todos dançarão em círculos, e o tango, o twist e a bossa nova serão promovidos e tornados obrigatórios. Todos deverão ser capazes de dançar. As autoridades, como na China, precisarão compor poesia além de pintar.

A atitude em relação aos agricultores será sagrada. Toda a vida será adaptada de acordo com os agricultores. Tudo para os camponeses. A população será pastoralista e cultivadora. O trabalho agrícola, os grãos, as uvas, a panificação, os pães e os touros, as vacas, as ovelhas e as cabras serão elevados ao status de ideologia estatal. Vendo uma espiga de grão ou um burro, para não mencionar um agricultor ou pastor, todos os cidadãos da Platonópolis os acolherão com cânticos. À frente da humanidade estarão o Pão e o Vinho. Touros que falam com a Lua entre seus chifres servirão Pão e Vinho aos viajantes cansados.

Ao redor de tudo haverá jardins e florestas e animais selvagens juntamente com animais domésticos. Os lobos dominarão o artesanato e ajudarão os homens a consertar carrinhos e cantar canções.

Os camponeses terão barbas enormes que estarão trançadas com trigo maduro. Como o mais inteligente dos irmãos da floresta, os ursos também trabalharão nos campos. Os porcos alimentarão a si mesmos ou elegerão um porco-em-chefe.

As mulheres receberão panelas de barro com leite fresco e chapéus enormes e extremamente bonitos.

Esta é a vertical da sociedade.

Agora, para a horizontal.

Será um Império enorme. A riqueza da paisagem e a diversidade das políticas serão intrínsecas ao Estado. O princípio imperial deve ser reabilitado. Além do sistema trifuncional (filósofos, guerreiros e agricultores), o Império pode incluir enclaves de uma variedade de criaturas desde amazonas até seres de duas cabeças, duas patas e sem cabeça, ciganos, evenques, etc. Poderia até existir uma república das sereias ou veches florestais governadas por uma assembléia de domovóis e lechies. Também podemos imaginar um Congresso de Anjos ou um Kurultai tártaro.

Uma pluralidade de tipos de criatividade política e antropológica deve ser encorajada.

A TV e a imprensa serão canceladas, pois estão sempre proferindo algum tipo de bobagem sem sentido.

O vestuário terá seu próprio significado. O corpo é o invólucro do eidos, e as roupas são o invólucro do corpo. Todos terão roupas diferentes, mas todas coloridas e surpreendentemente bonitas, para que as pessoas prestem atenção a elas. As pessoas notarão as roupas e julgarão pelas roupas. Haverá um culto absoluto ao vestuário. As pessoas passarão a maior parte de seu tempo se vestindo e se trocando.

A comida será a mais ecologicamente pura, e distribuída gratuitamente, como dádiva. Haverá um lote excepcional de lingüiça, queijo e avelãs no Império.

Quanto ao gênero, as mulheres serão estimadas no Império, já que elas são mais interessantes que os homens (e mais belas). Os homens não ficarão aborrecidos com isso, já que a inveja será abolida por decreto (o primeiro decreto será abolindo a inveja, o ciúme e a propriedade; a inveja será punida com três golpe de hera para um olhar invejoso e seis para uma palavra ciumenta).

As mulheres amarão o Império e o acarinharão todas as manhãs ao saudar o sol.

A moralidade vai mudar. A palavra “mal” será excluída do léxico juntamente com todas as expressões ruins. Em vez delas será introduzido o conceito gradual de “menos bom”. Uma pessoa menos boa roubou um pãozinho no mercado. Ele merece menos amor e menos respeito do que aquele que pediu um pãozinho e o recebeu. Com um sorriso suave.

Todos vão sorrir e gargalhar nos funerais, pois como este mundo é tão belo, imaginem o próximo… E então a morte será compreendida como um retorno ao eidos (επιστροφή).

Não haverá lei. Aquele que é inteligente, ousado e belo, está certo.

A educação combinará alta metafísica, teologia, angelologia e heidegerianismo para as crianças e Escola de Kyoto. Todos serão ensinados assim.

Os guerreiros também serão ensinados ginástica e patinação artística.

Os poetas serão ensinados idiomas diferentes, de 10 a 15 cada um.

Os agricultores não terão nada a aprender, além de bossa nova e tango. Eles já são tão sábios em seu trabalho sagrado.

É aproximadamente uma sociedade assim que nos propomos a construir como objetivo da Quarta Teoria Política.

Notas
[1] Kantorovich, E. Dva tela korolia. Issledovanie po srednevokovoy politicheskoi teologii. Moscow: Izdatelstvo Instituta Gaidara, 2013

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